31/07/2013
A arte de grafitar
Diego e Maicon: dois dos precursores do grafite em Nova Friburgo
Vinicius Gastin
A pichação e o grafite, o vandalismo e a arte. A segunda é uma
evolução da primeira, tanto do ponto de vista artístico, quanto em
termos de responsabilidade. A partir deste princípio, é preciso pontuar
as diferenças entre ambas e, para notá-las, basta observar os dois
trabalhos. Enquanto o pichador atua pela emoção de escrever algo em um
lugar desafiador — que seja alto ou de difícil acesso, por exemplo — os
grafiteiros prezam pela beleza do desenho em uma elaboração mais
complexa. "Nós fazemos o trabalho para ser apreciado pelas pessoas”,
conta Diego Moneratt Azevedo, 24 anos.
Imagem de Raul Seixas coloriu uma das faixas utilizadas no Ato Louco
Alguns dias após a pintura da kombi abandonada, o veículo foi retirado do local
http://www.avozdaserra.com.br/noticia/24284/a-arte-de-grafitar
O grafite moderno surgiu a partir do movimento de Maio de 1968,
quando inscrições de caráter poético-político foram feitas nos muros de
Paris, e se desenvolveu posteriormente em Nova York no fim dos anos 70,
dentro da cultura hip hop — uma influência estética muito forte neste
tipo de arte até os dias de hoje. Em Nova Friburgo, o grafite passa por
um processo de expansão, mas paralelo ao trabalho desenvolvido pelo
grupo a ousadia dos pichadores ameaça a originalidade e o verdadeiro
objetivo dos desenhos nas paredes e muros. "Quando eles perceberam que
nós estávamos usando os muros, começaram a usar também”, conta Diego.
"Na verdade, o grafite é contra a pichação. O nosso trabalho, inclusive,
começou tapando as pichações e fizemos esse procedimento em Duas
Pedras. Existe até uma rivalidade entre grafiteiros e pichadores por
conta disso. Eu conheci pessoas que faziam esse trabalho, e convidei
alguns deles para fazer o grafite. Isso nos atrapalha. Por conta das
pichações, as pessoas acham que estamos estragando os muros”, argumenta.
O jovem designer de peças de automóveis, de 24 anos, é um dos
pioneiros do grafite na cidade. Diego desenvolveu o gosto pelo desenho
ainda criança e o talento facilitou o processo de adaptação. O interesse
por este tipo de pintura surgiu em uma apresentação da banda Flowzen,
da qual faz parte, em Macaé. "A gente foi fazer um show em um evento
atrelado à cultura do hip hop em geral, que inclui a dança de rua e o
grafite. Gostei e pensei em trazer para nossa cidade, assisti diversos
vídeos na internet e comecei a praticar para me aprimorar. Então criamos
o grupo The Red Crew, formado por quatro integrantes”, conta.
Desde então, vários espaços, antes vazios, ganharam as cores da
criatividade. Após a tragédia de 2011, diversos muros de contenção foram
construídos e o aspecto cinzento das obras aos poucos dá lugar ao
colorido das tintas. "Comecei a fazer o trabalho junto com um amigo, e
as pessoas passaram a nos chamar para fazer trabalhos em casas,
instituições e outros lugares. As pessoas querem saber sobre a arte, e
inclusive desejam fazer aulas. Entretanto, ainda não temos estrutura
para isso, pois Nova Friburgo ainda não é uma cidade do grafite.”
Imagem de Raul Seixas coloriu uma das faixas utilizadas no Ato Louco

Pintura em um muro da Rua Monte Líbano é considerada
a mais marcante pelos grafiteiros friburguense
"Nova Friburgo ainda não é uma cidade do grafite”
Esta frase retrata as dificuldades para adquirir o material
necessário às pinturas. Cada lata de tinta custa em média R$ 13 e não
são utilizadas menos de cinco para cada desenho. O próprio grupo se
reúne, divide as despesas e executa o trabalho. O tempo de pintura varia
de acordo com o tamanho do espaço e dificuldade dos traços. Os
trabalhos de 5x2 metros, por exemplo, geralmente são feitos em uma hora.
"Nós trabalhamos com a Color Gym, que não é própria para o grafite e
custa caro. Não tem outra tinta para spray. A gente gasta bastante
dinheiro quando desenvolvemos um trabalho.”
A variedade de bicos encaixados na lata do spray e utilizados para
colorir as figuras também é limitada nas lojas do município. A espessura
e o cumprimento de cada um interferem na hora de fazer os traços.
"Improvisamos com agulhas para o traço sair mais fino e outros truques
que estamos aprendendo com a prática.”
Antes da pintura, o desenho é feito com uma cor neutra, mais
próxima à do muro a ser colorido, ou mesmo com pedras. Assim foi feito
na Rua Monte Líbano, no Centro, naquele que é considerado o trabalho
mais marcante do grupo. "Contamos com a ajuda de alguns amigos de Macaé,
e acho que o nosso trabalho aliviou um pouco aquela lembrança ruim, de
tudo o que aconteceu no local. O intuito do grafite naquele lugar foi
exatamente mudar isso, e mostrar que a cidade vai se reconstruir. As
cores e o desenho fortaleceram o ideal de reanimar a cidade.”
Entretanto, grafitar ainda não é tarefa fácil. E não só pelas
dificuldades estruturais. Diego perdeu a conta de quantas vezes foi
abordado por policiais, que pediam para ver a autorização. Nem sempre
eles tinham. "Apelamos para a conversa. Na maioria das vezes conseguimos
convencer de que aquela pintura seria positiva para o local”, conta.

Muros da Rua Cristina Ziede ganharam um
colorido especial com o trabalho dos grafiteiros
O grafite-denúncia: a tela é a rua!
Cada desenho tem uma mensagem diferente. No Ato Louco, movimento
realizado na Praça Getúlio Vargas, os grafiteiros pintaram uma foto do
cantor Raul Seixas, simbolizando o Maluco Beleza. "A gente costuma levar
um caderno com os desenhos e mostramos para os clientes. Às vezes eles
pedem algo específico.”
Em outros casos prevalece a sensibilidade do artista, como no
primeiro trabalho realizado por Diego Azevedo. O muro de contenção da
Rua Cristina Ziede ganhou um toque de criatividade, onde as folhas da
árvore se transformaram no cabelo do boneco desenhado. "A sacada foi
exatamente a árvore que eu vi na hora. Não havia sido planejado, surgiu
naquele momento. Até a polícia parou e elogiou.”
No Rio de Janeiro o grafite é utilizado para denunciar os problemas
do município. Os artistas colorem os carros abandonados e o entorno dos
buracos, e muitas vezes aceleram o processo de recolhimento dos
veículos e reparo nas ruas. "Fizemos isso com uma Kombi abandonada em
Conselheiro Paulino. Passamos por lá dias depois, e ela não estava mais
no local”, relembra.
O talento ganha espaço e novos convites começam a aparecer. Diego
revelou que a Apae pediu a pintura do muro, que deverá ser o próximo
trabalho dos grafiteiros. Outros trabalhos, como a pintura do Viaduto
Geremias de Mattos Fontes, estão inacabados e dependem de incentivos
para serem finalizados. "O futuro do grafite é promissor. Ainda está
difícil pela falta de material e de ajuda, mas espero que sejamos
reconhecidos. Estamos fazendo a arte positiva. Hoje em dia, a tela é a
rua.”
Na contramão das pichações, o colorido do
grafite começa a ganhar as ruas da cidade
Alguns dias após a pintura da kombi abandonada, o veículo foi retirado do local
http://www.avozdaserra.com.br/noticia/24284/a-arte-de-grafitar
Postado por Géssica Bom de Barros





Nenhum comentário:
Postar um comentário